Escolher vinhos adequados a uma comemoração, a um momento especial ou simplesmente para o dia a dia não é das tarefas mais fáceis. Exagero meu? No momento em que escrevo estas palavras, a rede social Vivino aponta que há 11.967.555 rótulos em seu banco de dados. Ou seja, se degustarmos um vinho por dia a partir do nosso aniversário de 18 anos até completarmos 90 anos, teremos experimentado 26.280 vinhos. Faça as contas. Precisaríamos de mais de 455 vidas para experimentar todos os vinhos do planeta. Portanto, escolher um vinho para a adega ou para acompanhar a refeição não é tarefa fácil.

Por isso, você encontrará abaixo dicas simples para facilitar a escolha do vinho, sem que seja necessário apelar para rótulos já conhecidos ou clichês. Afinal de contas, com tanto vinho bom por aí, por que degustar sempre os mesmos rótulos?

Como escolher vinhos pontuados

Provavelmente, a melhor forma de acertar na escolha do vinho é optar pelos vinhos pontuados por especialistas ou publicações especializadas. Atualmente, as principais referências são: as revistas Wine Spectator (muitas vezes identificada pela sigla WS), Wine Enthusiast (WE) e Decanter (DE), o crítico Robert Parker (RP) e o Guia Descorchados (GD, que cobre vinhos argentinos, chilenos e uruguaios). As avaliações realizadas pontuam os vinhos em uma escala de 50 a 100 pontos, onde quanto maior a nota, melhor o vinho. Você pode encontrar nas respectivas publicações e websites uma descrição de cada faixa de pontuação, mas, em linhas gerais, não é preciso mergulhar nas descrições e detalhes técnicos para realizar uma boa escolha. Para isso, algumas dicas podem ser úteis na hora da escolha:

  • Vinhos com menos de 80 pontos possuem grande chance de não agradar.
  • De 80 a 85 pontos você encontra vinhos medianos, sem nada de especial.
  • De 86 a 90 pontos você encontrará bons vinhos, corretos e agradáveis.
  • De 91 a 95 pontos é a faixa de vinhos capazes de alcançar uma ótima relação custo-benefício, vinhos diferenciados a um preço razoável.
  • Acima dos 95 pontos, todos são ótimos vinhos. Nesta faixa, seu único problema será com o bolso. Se puder pagar, vá em frente e seja feliz!

O processo de avaliação de vinhos, realmente, contém uma boa dose de subjetividade. Muitos enófilos procuram uma explicação racional, precisa e irrefutável para as avaliações, mas nem sempre isso de fato existe. As descrições abaixo definem quais características são esperadas em cada faixa de pontuação e servem como um guia para que as avaliações possam ser melhor entendidas e até executadas por vocês, leitores. Mas no final das contas, a subjetividade continua presente na forma como cada um relaciona suas experiências e sensações às definições estabelecidas.

  • 98 a 100 pontos / 5 estrelas – vinhos perfeitos ou que beiram a perfeição, combinando níveis máxi- mos de seus componentes: equilíbrio, complexidade, potência e persistência.
  • 95 a 97 pontos / 4.5 estrelas – vinhos totalmente diferenciados, ícones em suas características e regiões produtoras. Além de não possuírem falhas, possuem alguns de seus componentes em níveis elevados.
  • 92 a 94 pontos / 4 estrelas – vinhos excelentes, sem falhas, apresentando pelo menos um de seus componentes em destaque.
  • 89 a 91 pontos / 3.5 estrelas – vinhos muito bons, corretos, sem falhas, porém sem características marcantes que mereçam grande destaque.
  • 86 a 88 pontos / 3 estrelas – bons vinhos, com uma boa estrutura geral, mas que apresentam pequenas falhas.
  • 83 a 85 pontos / 2.5 estrelas – vinhos abaixo da média, apresentando falhas moderadas, notáveis, que chegam a prejudicar a degustação.
  • 80 a 82 pontos / 2 estrelas – vinhos apenas aceitáveis, com falhas em níveis elevados.
  • Abaixo de 80 pontos / 0 a 1.5 estrelas – vinhos inaceitáveis, com falhas que tornam a degustação inviável, incluindo falhas mais técnicas, descritas em detalhes no capítulo “É defeito ou não?”.

Algumas observações rápidas:

  • As falhas mais comuns que podem ser encontradas nos vinhos são taninos pouco maduros, que geram a sensação de adstringência (secura, rispidez) ou amargor excessivos na boca, e álcool em níveis desequilibrados com o restante da estrutura do vinho. A ausência de falhas como estas ou a presença de falhas em níveis mais sutis ou mais elevados apontam maiores ou menores pontuações.
  • Vinhos defeituosos não são avaliados. Ou seja, não se pode confundir vinhos que, em seu estado normal, possuem falhas, com vinhos que, excepcionalmente, possuem defeitos, como bouchonné (saiba mais no capítulo “Cheira Rolha”) ou oxidação, por exemplo. Nestes casos, o vinho é descartado e busca-se uma nova garrafa, em condições normais para avaliação.

Uma interessante análise realizada pelo site Wine Folly (www.winefolly.com) mostra que as notas de avaliações se concentram na faixa entre 82 a 94 pontos. Raramente degustamos vinhos abaixo dos 80 e acima dos 96 pontos. A explicação é simples. A indústria mundial de vinhos encontra-se atualmente em um elevado patamar de maturidade. Até países em desenvolvimento, pertencentes ao Novo Mundo, como Chile, Argentina e África do Sul, possuem hoje uma indústria de vinhos desenvolvida. A consequência disso é que a grande maioria dos vinhos disponíveis no mercado possui níveis adequados de qualidade. Quanto ao segundo grupo, dos vinhos com elevada pontuação, a explicação está no bolso: geralmente eles chegam ao mercado com preços elevados, limitando seu consumo.

Como escolher vinhos pelo preço

Se tivesse que ser politicamente correto, diria que preço não é sinônimo de qualidade. Realmente existem muitos vinhos excelentes a preços razoáveis e muitos vinhos medianos caros. Mas, normalmente, o preço do vinho é um bom balizador de sua qualidade. Como em todos os mercados, podem existir pontos fora da curva, mas os critérios abaixo ajudam a acertar na hora da compra:

  • Vinhos na faixa dos R$20, R$30 e R$40, normalmente, são bons vinhos, corretos, porém simples. Não espere nada de surpreendente. Eventualmente você até irá encontrar um vinho diferenciado, que lhe agrade bastante, mas, na maioria das vezes, encontrará apenas vinhos medianos.
  • Entre R$50 e R$70 se encontram os vinhos com melhor relação custo-benefício. Esta é uma faixa complexa, onde se pode até encontrar vinhos medianos ou que não agradam, mas dificilmente irá errar e comprar vinhos ruins. Na maioria das vezes, encontrará vinhos que lhe agradarão bastante, alguns deles ficarão inclusive em sua memória degustativa.
  • Na faixa acima de R$100 é onde se encontram os vinhos especiais. De R$100 a R$200 é possível encontrar vinhos muito bons, com características diferenciadas, vinhos que lhe farão perceber detalhes até então nunca percebidos ou que lhe trarão novas experiências.
  • Na faixa dos R$300 e R$400 você começa a encontrar alguns vinhos ícones, vinhos excepcionais conhecidos mundialmente.

Duas rápidas observações:

  • Os preços acima valem para o Brasil. No exterior, as faixas mudam completamente de significado.
  • Leve sempre em consideração as particularidades do local onde irá adquirir o vinho: supermercados e lojas especializadas podem ter um preço um pouco melhor do que o da faixa identificada, enquanto que restaurantes, quase sempre, possuem um preço ligeiramente superior.

Como escolher vinhos pelo custo-benefício

Você não precisa ser matemático, economista ou especialista em vinhos para saber que as melhores compras são aquelas com boa relação custo-benefício. E esta relação pode ser alcançada exatamente quando colocamos em prática as duas abordagens citadas anteriormente: vinhos com elevada pontuação e baixo preço.

Comparar custo é fácil. Quanto mais barato, melhor. Mas como comparar benefício quando estamos diante da prateleira ou com a carta de vinhos à mão? Uma boa sugestão é utilizar a pontuação do vinho para identificar, antes de degusta-lo ou mesmo antes de compra-lo, qual rótulo fornece o maior benefício.

Analisando os principais e-commerce da internet, percebemos que com R$60, é possível comprar vinhos pontuados com 91 e 92 pontos. Com R$100, pode-se comprar outros rótulos nestas faixas, assim como alguns vinhos de 93 a 95 pontos. Na faixa dos R$200, é possível adquirir alguns rótulos de 96 pontos. Já a faixa dos 97 a 100 pontos demanda quantias proibitivas para a maioria dos bolsos. Mas nada que uma comemoração especial não justifique.

Como fugir de “roubadas”

  • Algumas vinícolas chilenas e argentinas possuem rótulos “Reservado”. O termo é puramente marketing e não representa nada além da intenção de dar ao vinho um caráter mais sofisticado. Na Espanha, as regras de Classicações de Qualidade especificam critérios rígidos para os vinhos ostentarem os rótulos Reserva e Gran Reserva, os quais representam um vinho de qualidade superior (leia mais no capítulo “Terroir, Denominações de Origem e Classificações de Qualidade”). Já aqui, na América do Sul, o “Reservado” representa apenas uma mera menção às classificações espanholas.
  • Tradicionalmente, os vinhos pelo mundo são comercializados em garrafas de diversos tamanhos padrão (veja na imagem a seguir os tamanhos mais comuns). Frequentemente, porém, é possível encontrar nos supermercados garrafas de 1 litro, normalmente utilizada para vinhos suaves de baixo custo, ou seja, vinhos produzidos de uvas não viníferas estilo “Sangue de Boi”.

Artigo gentilmente cedido pelo blog Terroirs: “Como escolher vinhos de forma inteligente“, “As avaliações e pontuações aqui do blog“. Outros artigos disponíveis em terroirs.com.br.